DEVERÁ O MANITOL ORAL SER RECONSIDERADO COMO UMA OPÇÃO IDEAL PARA A PREPARAÇÃO DO CÓLON?
A maioria das preparações intestinais atualmente disponíveis são razoavelmente eficazes e seguras; no entanto, a aceitação dos doentes é ainda um problema significativo, representando possivelmente um obstáculo à realização da colonoscopia.
O manitol atua como laxante osmótico, tendo sido amplamente utilizado no final da década de 1970 e início da década de 1980 como agente de limpeza intestinal para colonoscopia (utilização off-label).
Apesar de ainda ser muito utilizado em alguns países da América Latina (principalmente no Brasil), na Europa e nos EUA, o manitol foi descontinuado no século passado após alguns casos de explosão atribuídos a um aumento da concentração intestinal de metano (CH4) e/ou hidrogénio (H2) resultante da fermentação bacteriana do açúcar não absorvível.
No entanto, esta hipótese nunca foi confirmada, tendo sido também relatadas outras explosões intestinais utilizando preparações com polietilenoglicol.
Assim foi realizado o estudo SATISFACTION que consistiu num estudo de Fase III, internacional, multicêntrico (30 centros; inclusão de 703 doentes), aleatorizado, cego para gastrenterologistas, de determinação de dose/não inferioridade. Na fase II do estudo, foram avaliadas comparativamente três doses únicas de manitol oral (50 g, 100 g e 150 g). A dose de 100 g/750 mL foi identificada como a quantidade ideal em termos de eficácia, segurança e tolerabilidade. A parte da Fase III do estudo foi concebida para demonstrar a não inferioridade da dose única de baixo volume de manitol administrada 4 horas antes da colonoscopia quando comparada com a preparação padrão de dose dividida de 2 L de PEG-ASC (MoviPrep®) em termos de eficácia de limpeza intestinal e a sua superioridade em termos de aceitação do doente.
Além disso, todos os doentes que receberam manitol oral ou PEG-ASC foram submetidos a medições intestinais dos níveis de H2 e CH4 nos diferentes segmentos do cólon para avaliar o risco relativo entre os dois medicamentos de causar concentrações de gases potencialmente críticas.
O manitol foi não inferior ao PEG-ASC no objetivo primário (proporção de doentes com limpeza intestinal adequada). Não houve diferença significativa nos parâmetros de eficácia secundários, nomeadamente na taxa de deteção de adenomas, taxa de entubação cecal), segurança (concentração de gases intestinais, parâmetros analíticos e eventos adversos).
O perfil de aceitabilidade foi significativamente melhor no grupo do manitol para a facilidade de utilização, sabor e disposição para reutilização (p < 0,0001 para todos). A concentração de gases intestinais (H2, CH4) foi semelhante entre os grupos e muito abaixo das potencialmente críticas.
Notavelmente, o manitol teve uma ação muito rápida em comparação com o PEG-ASC: a realização da limpeza intestinal algumas horas antes do procedimento endoscópico pode representar uma vantagem significativa tanto para os doentes como para o funcionamento das unidades de endoscopia digestiva.
Gabriela Duque